quarta-feira, maio 10, 2006

10 Maio 2006 - Dia 02

































































Noções de geometria, sistema de triangulação e regra 3-4-5, para marcações no terreno.
Depois, exercícios reais de marcação de plantas “inventadas”.
Alguns deles ontem já perguntavam “Vamos só escrever? Não vamos fazer nada prático?”
Note-se que isto foi cerca de 15 minutos depois de começarmos a primeira aula teórica…
De facto, só dois alunos têm o 12º ano, e os outros variam, havendo mesmo quem tenha apenas o 5º.
E nem pensar em fazer paralelismos com o nosso ensino, porque o nível é, de facto, muito baixo, quer em termos de conhecimentos adquiridos, quer, inclusivamente, em termos de capacidades de raciocínio científico, de aprendizagem, de concentração e de espírito crítico…
Acrescente-se que muitos deles escrevem muito mal (mesmo muito mal) e alguns nem falam nem percebem português com facilidade plena (e os meus conhecimentos de Ronga e de Xangana ainda são escassos…)
Da parte da tarde, marcação de eixos no terreno de obra.
Entretanto, dadas as condições e todo o contexto, achámos por bem alterar o projecto radicalmente – na sua forma, implantação e, inclusivamente, função.
A ideia inicial era a de construir uma casa para uma das famílias, servindo essa de protótipo para outras futuras.
Isto encerrava dois problemas “filosóficos”:
O primeiro era que, se queríamos que a construção fosse pedagógica, ela teria de abarcar uma série de situações possíveis e de enfrentar uma série de dificuldades técnicas criadas previamente com o intuito de aguçar o engenho dos formandos na sua resolução. Isto originaria que a casa a construir fosse maior, melhor e mais elaborada que as existentes (que são de condições muito insatisfatórias – mesmo para casas de realojamento…), o que poderia dar azo a mecânicas sociais pouco positivas, dentro do bairro (sobretudo dando origem a sentimentos de privilégio ou injustiça, uma vez que as casas são atribuídas igualmente a todas as famílias).
O outro problema era o de se poder vir a entender que a utilização de terra crua na construção (presente nas populações rurais noutras partes do país) era, de alguma forma, um retrocesso face à utilização do betão, e que isso constituía um abandono da qualidade das construções atribuídas.
Para evitar estes possíveis problemas, resolvemos construir um edifício de apoio à casa existente destinada a receber os voluntários que para aqui vêm trabalhar na comunidade por períodos mais ou menos demorados.
Esta casa dos voluntários é, actualmente, a única (para além dos alojamentos da comunidade religiosa que rege este bairro) que tem água canalizada e instalações sanitárias incorporadas – as restantes casas do bairro têm um sistema de latrinas (individuais, por cada fogo) no fundo da machamba (horta).
Assim sendo, mostrar à comunidade que estas pessoas “evoluídas”, vindas do “ofuscante mundo ocidental” e com capacidade económica para virem até Moçambique “passar uns tempos a ajudar os pobrezinhos” escolheram a terra como material para construir a sua própria casa, onde vão ficar alojados, mesmo depois de já terem uma em betão, pode ser o melhor catalizador para a futura aceitação desta técnica na zona.
Como quando se apresenta um projecto a um cliente: não chega que ele goste, é preciso que ele o passe a desejar!

Entretanto, continuamos a tentar que o material seja acabado, comprado, construído…

3 comentários:

andré lemos disse...

É só imagens e nada de texto! Nós leigos, queremos saber pormenores, ou julgas que só tens amigos arquitectos?!! Pelo menos percebo que estão a fazer um molde em madeira para a construção de tijolos em adobe, certo?
Todos parecem interessados e competentes. E uma imagenzinha tua a dar aulas? Isso é que eu queria ver...eh eh
Já agora, não há aí nenhum artesão de máscaras? Isso é que era de amigo trazeres umas aqui para o Opuntia Man...

andré lemos disse...

Agora sim, tudo esclarecido. Força aí.

dragão marinho disse...

Bestial isso que fazes!
Era bom haver muita gente assim.