MUMEMO
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diário de campo














































A primeira coisa que hoje me vem à cabeça é que estamos em Agosto, o mês em que, ao contrário do que me apetece neste momento, tudo terminará...
Depois disso, é a obra. Continua-se com as fundações nas i.s., com a colocação da armadura da viga e a betonagem até à cota prevista, inicia-se os pilaretes do terraço anterior, com BTC mais estabilizados, usa-se todos os desperdícios de betão e argamassa para, à semelhança do que foi feito nos muretes de fundação do início da obra, se preencher os fracos blocos de betão para os reforçar, coloca-se os blocos de canto no embasamento dos muros das i.s., assim que a viga está minimamente seca, afina-se os níveis desses cunhais e deixa-se à espera para continuar amanhã.
Entretanto a Teresa regressou de Inhaca, de espírito cheio e com imagens que me fazem ansiar pela minha desejada viagem através deste enorme e belo país.
Os furos deixados pelas agulhas de taipal estão tapados, e começamos com os preparativos para o reboco – limpeza de poeiras, criação de rugosidade para aderência, e aplicação da primeira camada, ou salpisco.
Um grupo de alunos do curso de electricidade vem, a nosso pedido e com a concordância do professor, estudar a viabilidade e as exigências de executarem a instalação eléctrica da casa.
Isto seria óptimo. Para eles, porque é uma experiência real; para os nossos alunos, porque podem presenciar um outro tipo de intervenção num edifício, e aprenderem com isso; e para nós, porque garantimos a instalação no edifício, para que ele fique dotado das condições desejáveis.
Tudo isto é executado em ritmo intenso, com uma escrupulosa divisão de tarefas em equipas de trabalho simultâneo e complementar. Isto começa quase a parecer uma obra a sério, o que me faz ter boas expectativas sobre o grau de preparação destes alunos, sobretudo dos encarregados, que têm a difícil tarefa de fazer todas as peças encaixarem.




A Teresa compensa a minha estadia no kruger, e fica na ilha de Inhaca, depois do fim-de-semana. Bem merece, porque, com tudo o que por aqui há por fazer, já cá veio 3 vezes e pouco tempo livre teve para sair de Maputo. Eu sempre terei as minhas férias no final.
Na obra, chumbamos as peças metálicas de fixação dos barrotes, enquanto outra equipa inicia as fundações do corpo das instalações sanitárias.
Este corpo foi deixado para o final por várias razões. Em primeiro lugar, porque o projecto inicial não contemplava a existência de i.s., por isso elas ficariam sempre para segundo plano. Depois, porque o tempo era muito escasso, e nem tínhamos as coisas definidas para entrar em jogo com as canalizações e todos os trabalhos inerentes à construção de i.s. Para além disso, chegámos à conclusão de que seria muito bom para os alunos terem uma experiência de outro nível, que lhes fosse mais exigente e lhes desse, por consequência, mais confiança. Como tal, eu partiria de férias no dia 2 de Agosto, e eles ficariam a trabalhar sozinhos no corpo de i.s. Depois eu regressaria a Maputo no final do mês e viria ver como tudo estava. Seria uma forma de eles estarem entregues a eles próprios, mas com uma certa segurança, por saberem que eu ainda regressaria e os poderia ajudar, aconselhar, e dar dicas sobre como resolver eventuais problemas ocorridos entretanto. Uma óptima ocasião para eles.
Entretanto, mais uma vez, os meios postos ao nosso dispor pelas freiras são longe de serem ao nível desejado (e mesmo do possível, diga-se...!) e, para ir comprar algumas coisas para a obra, como tratamento anti-xilófago para as madeiras, tenho de ir com o condutor fazer uma volta de quilómetros, que me leva o tempo que não tenho, acompanhando-o a descobrir o melhor sítio para comprar ração para os pintos do aviário do bairro... A parte boa disto é que penetro em locais completamente surreais e onde ninguém se atreveria ou lembraria, sequer, de entrar.


















Uma parte das fiadas em BTC já está assente como deve ser e, como o tempo não permite requintes, coframos logo essa parte da cinta. A armadura estava feita de véspera, com dois ferros de 6mm estribados com igual diâmetro, e o betão escorre dos baldes com ligeireza. Do outro lado, continua o assentamento de BTC.
Ninguém perde pitada do que se vai fazendo e, por todo o bairro, ao passar, lá oiço, frequentemente, a tal frase recorrente: “Sr. Miguel, que bela casa que ali está a fazer! Quem me dera ter uma assim...!”
E os trabalhos duram até à noite africana. E diabos me levem se aqui não há mais estrelas do que lá por cima...


































































































































Pausa para mais uma ida a Maputo. Desta vez com a Mariana, para vaguear pela cidade onde tantos da família dela viveram durante uns bons anos. Belos tempos devem ter sido, porque, independentemente de todas as questões políticas e sociais associadas ao período do colonialismo, esta cidade deveria ser lindíssima nessa época, e um óptimo local para nele se viver!


























































Foto: Francisca baptista da Silva





































































































O ritmo austral é, de facto, ao sabor de outros ventos, e nem sempre é fácil prever-se o tempo que uma pequena coisa levará a efectuar-se.
Os moldes dos taipais, dos adobes, a prensa de BTC, as peças de provete, todo o material para o curso – tudo por fazer, comprar, reunir, apesar dos nossos trabalhos prévios e envio de toda a informação.
Agora temos de nos desdobrar em esforços para tentar ter as coisas essenciais para o curso antes dele começar – material, equipamento, ferramentas, e até sala e carteiras!
Pior que tudo, o paradoxo derradeiro – parece que nem sequer temos alunos…
A confusão na eleição de alunos para frequentarem o curso deturpou as coisas, e quem devia estar a ser formado não sabia que isso implicava aulas diárias, em horário completo, durante 3 meses. Como a riqueza pessoal não abunda por estas partes, 3 meses sem poder trabalhar nas profissões precárias que alguns ainda têm não é um bom ponto de partida, seja lá para aprender o que for, que o pão para as bocas da família ganha-se diariamente, não é numa sala de aulas todo o dia…
Temos mesmo muito esforço pela frente, para conseguirmos pôr isto a andar…
