quarta-feira, maio 17, 2006

17 Maio 2006 - Dia 07






























































O Carlitos chegou atrasado e chamei a atenção a todos para o facto de toda a equipa estar à espera, sem produzir, enquanto o encarregado não chega, pelo que este tem forçosamente de chegar a horas!
Em seguida tomou conta das operações, e passou-se mais ou menos o que eu esperava, com excepção para a surpresa, pela positiva, que foi a postura responsável dele, contrária ao que a indisciplina das aulas deixaria prever. Prova que algumas pessoas precisam apenas de um estímulo e que se confie nelas, para se motivarem e fazerem coisas positivas.
Mas foi curioso verificar que as minhas indicações e recomendações de que ele seria o responsável pelo andamento da obra, pelo material e seu estado, utilização, limpeza e armazenamento, pela qualidade dos trabalhos e equipas e pelo desempenho geral criaram uma noção inicial de que deveria ser ele a fazer tudo.
Só após algum tempo é que ele se convenceu de que não podia fazer nada do que os outros fariam, para poder estar sempre a coordenar e controlar os trabalhos e a qualidade.
Começo a interessar-me cada vez mais pela faceta humana deste projecto.
Cada vez mais a terra e a taipa se tornam secundárias e me interesso mais em pensar em como é que estes “miúdos” podem ficar preparados para apresentarem trabalho de qualidade, em como é que podem apaixonar-se por isto e desempenhar a sua função com qualidade e com condições dignas, e como é que podem aspirar e chegar a ter um emprego nesta área e condições de vida um pouco mais decentes. Batalho muito em convencê-los de que não lhes chega saber o que lhes ensino, têm de saber fazê-lo e bem, e trabalharem como equipa. Insisto muito neste ponto do espírito de equipa e da organização.
Aplicamos um betão sobre o enrocamento que tínhamos colocado no fundo das valas de fundação. Este betão, ao traço 1:5:2, é bastante líquido, para que escorra por entre os espaços do enrocamento e sirva para lhe dar mais união e apenas para regularizar o topo, para aí montarmos os ferros de armadura, o que fazemos no final do dia, após amarrar os estribos.
O trabalho é relativamente bom (se tivermos em conta que são miúdos, quase todos sem experiência ou com muito pouca, e a aprenderem), e a coordenação do Carlitos é motivo para irmos até à sala, no final do dia, para comentarmos o que se passou.
Algumas críticas por alguns não quererem acatar ordens de “um puto”, mas muitos elogios à forma como ele conduziu os trabalhos.
No final, eu subscrevo os elogios, e falo-lhes da necessidade e do proveito de se criar o tal espírito de equipa. Refiro-lhes que, se trabalharem bem serão bons, mas se trabalharem bem em equipa, serão os melhores. Mais umas palavrinhas aqui e ali, alguma inspiração do momento, e a aula termina com grande moral, com todos os alunos, espontaneamente, a baterem palmas e a sentirem-se muito motivados e contentes por pertencerem a este grupo e estarem envolvidos neste trabalho.
Mesmo que não tivesse vivido todos os momentos excelentes que já por cá vivi, o ambiente que senti naqueles 15 minuto de final de aula já justificariam a minha vinda cá! Ganhei o dia!

2 comentários:

andré lemos disse...

Ora parabéns Miguel! Imagino esses 15 minutos de felicidade de ensino.
Já agora te digo que estou a apreciar bastante o desenvolvimento deste blog.
Cuidado com as mambas.

aquijas disse...

parabéns, mocho!
sigo com atenção os desenvolvimentos e noto um certo paralelismo com o nosso país, falta motivação e capacidade de improviso.
vou divulgar, ainda mais, este blog aos nossos colegas arquitectos e não só.
e a cerveja ? é boa ?