terça-feira, maio 23, 2006

23 Maio 2006 - Dia 11

































































A manhã foi preenchida com a colocação dos blocos de canto, nos cunhais do embasamento, para definição de alinhamentos e para nivelamento das fiadas. Depois será só preencher o espaço entre os topos, alinhando pelo fio de referência que estenderemos ao longo de cada troço.
Todos estes procedimentos obrigam a uma ginástica enorme, quer de memória (sobretudo visual), quer de interpretação e improviso.
Nós somos, todos os três, arquitectos, e estamos a desempenhar, simultaneamente, os papéis de arquitecto, de engenheiro, de empreiteiro, de encarregado de obra, de gestor de obra, de contabilista, de pedreiro e de servente.
Não chega saber, por exemplo, que os tijolos têm de ser colocados de nível, é preciso saber como conseguir fazê-lo; não chega saber que o betão armado é betão com ferros lá dentro, é preciso saber qual é a melhor maneira de fazer o betão e de o misturar bem, que tem de se vibrar e como, que diâmetro têm os ferros de armadura, como colocá-los, como estribá-los, como amarrar esses estribos, como executar todas essas coisas na prática e com que ferramentas…
Eu tive algumas experiências de seguir obras, e trabalhei nalgumas como operário e servente (uma vezes para aprender, outras para sobreviver – como, por exemplo, quando estava a estudar no estrangeiro, inclusivamente quando fazia o mestrado em construção em terra), mas em alguns casos tenho de tentar lembrar-me de como costumo ver os operários (os bons) a fazer, em obras que sigo ou que observo, ou de cujo projecto sou autor. É uma infinidade de pormenores que surgem todos de repente, e em sequência imediata.
Só a questão de definir bem o material a comprar e todos os utensílios (desde as evidentes pás até ao dimensionamento das tábuas de cofragem e forma de as fixar). Um óptimo exercício.
E depois os improvisos… Hoje houve um problema com a bomba que extrai água do furo para abastecimento do bairro (não há rede pública, na savana africana, entenda-se…!) Como os bidões (que aqui chamam de tambores e por isso é que não os conseguiram comprar antes da nossa chegada) ainda não vieram, não tínhamos água, e então foi preciso ir pedir bidões plásticos de 20l às mulheres do bairro que se abastecem na fonte manual e ir dar a bomba e transportar água até encher dois carrinhos de mão e alguns baldes e regadores, para haver água para a argamassa de assentamento dos blocos do embasamento. A propósito, essa argamassa foi ao traço 1:3, e os blocos são de 40x20x10cm, ocos e de muito mau fabrico…
Vamos fazer um embasamento com 40cm de espessura (a mesma da das paredes de taipa) constituída por um pano exterior e outro interior, ambos com 10cm. Os 20cm entre os dois panos de blocos serão preenchidos com a areia das escavações, para os apoiar melhor e melhorar a estrutura da fundação e, sobretudo, para criar mais massa e, consequentemente, mais inércia térmica.
Finalmente, os moldes para ensaios de taipa estão prontos! Por isso, a parte da tarde é dedicada a uma breve explicação de como se faz a taipa, seguida de uma demonstração de preparação de terra e contacto com o estado hídrico ideal desta para bater taipa, que culmina na realização de 3 blocos de estudo, cada um com 30x30x30cm. Estes ensaios destinam-se a determinar qual a combinação mais adequada de terra, pedra e estabilizante para o nosso fim.
Assim, realizamos um bloco com 50% de terra e 50% de gravilha. Esta gravilha é cinzenta escura, parecendo-me de xisto, e muito partida, de maneira que por aqui se chama a isto (que nós chamamos de bago de arroz) de pó de pedra.
Um segundo bloco foi realizado com 45% de terra, 45% de “pó de pedra” e 10% de cal aérea em pó, e um terceiro com 45% de terra, 45% de “pó de pedra” e 10% de cimento.
A vontade seria de utilizar a terra sem adição de estabilizante, mas ela não me parece muito adequada a isso, porque é muito arenosa. Desde o primeiro minuto em que olhei para ela que achei que era “perfeita” para BTC (blocos de terra comprimida), mas teremos de a utilizar também em taipa e adobes, porque o objectivo central do curso não é a construção de uma casa, mas a vertente pedagógica e a formação, pelo que temos de abordar, pelo menos, as três técnicas “principais” – taipa, adobe, BTC. Estivemos a tentar introduzir o tabique (ou pau-a-pique), mas ainda não temos a certeza de o conseguir fazer…
Utilizando estabilização, seria nossa vontade preferir a cal, mas a questão é delicada, uma vez que a cal não só é mais difícil de encontrar aqui no sul do país, como é mais cara que o cimento quase 3 vezes – logo é anti-pedagógico recorrer a um material que os alunos dificilmente poderão utilizar no futuro, ao invés de sermos mais realistas e prepará-los para o que vai ser a realidade futura deles – a utilização de cimento. Também por isso aguardo, ansiosamente, a chegada da prensa de BTC que comprámos da África do Sul.
Hoje, quando descofrámos o primeiro bloco de taipa, a cara de espanto e de satisfação dos alunos assemelhava-se ao que se poderia dizer “descobriram a pólvora”. Ainda por cima, por causa da granulometria fina desta terra, os blocos ficaram com um aspecto impecável e muito homogéneo, e com uma cor lindíssima, que é o tom avermelhado da terra.
As reservas que alguns tinham, em relação a esta técnica, desapareceram de imediato, e alguns dizem já que vão construir ampliações da sua própria casa utilizando a taipa.
Foi um bom final de dia, e todos ficaram muito motivados para começarem a ver a casa surgir da terra.
Amanhã vamos fazer mais uns ensaios de taipa, com “receitas” diferentes, e também fazer alguns adobes.
Parte da motivação e da alegria dos alunos esta tarde, deve ser motivada pelo meu anúncio, no final da manhã, de que iriam ter direito a alimentação, a partir do dia 1 de Junho. A reacção foi de surpresa absoluta e de euforia total, começando todos a bater palmas e numa alegria desmedida.
Um dos pontos mais altos da minha estadia por cá, até ao momento…!

5 comentários:

Anónimo disse...

essa alegria, sempre demonstrada quando ficam satisfeitos, conquista-nos e transforma os nossos dias em algo muito mais agradável

Anónimo disse...

esqueci-me de assinar o comentário anterior sobre a alegria
Paula

Anónimo disse...

Estou simplesmente deliciado... e muito honestamente, cheio de inveja. Somos aquilo que fazemos. Um grande abraço do primo.

Anónimo disse...

A Inês manda beijinhos e adorou o Blog; Ficou fascinada com o que "para aí foste fazer" e espantada com a tua capacidade de adaptação em condições adversas ;) .

aquijas disse...

também fazemos aquilo que somos.
E não é um mocho qualquer que o faz.