sábado, maio 27, 2006

27 Maio 2006 - Dia 15








A longa ausência dos meus relatos quotidianos e a consequente estagnação deste blog devem-se não a ocorrências menos saudáveis na minha visita aos supostamente perigosos subúrbios de Maputo, mas antes a uma sobrecarga tremenda de trabalho nos últimos tempos, aliada a um fenómeno estranho que, de facto, não consigo traduzir por palavras, mas que tem muito a ver com a minha “expedição ao território proibido”.
Não vou, sequer, tentar descrever o que tive o privilégio de descobrir neste fim-de-semana surreal, com excepção de alguns apontamentos:
Primeiro, devo dizer que, salvo alguns momentos e em locais pontuais, nunca senti que corresse algum tipo de perigo – excepção feita (e de que maneira!) aos perigos de saúde, pela tremenda insalubridade que encontrei – mas também tive sempre a sensação de que, se não estivesse com “autóctones”, não duraria nem meia hora por aqueles lados…!
Depois, digo que revivi, de forma mais pitoresca e ainda mais sensibilizante, uma experiência que tive em França, há alguns anos. Nessa ocasião, tentava regressar a Lisboa, sem um tostão no bolso e, parando em Lyon, onde a generalidade das pessoas não está particularmente sensibilizada para parar na berma da estrada e dar boleia a um cabeludo de mochila às costas, acabei por me safar atravessando quase todo o sul de França clandestino num comboio de mercadorias, com uma garrafa de Perrier cheia de Poirée (aguardente de pêra), que partilhei com um vagabundo de meia idade, de nome Claude. Esse amigo do peito, que o foi durante algumas horas, ofereceu-me tudo o que tinha para partilharmos, incluindo a pouca comida que tinha, sem que nenhum de nós pudesse supor quando ele tornaria a ter o que comer. Como uma boa história dramática acaba sempre num ponto forte, esse vagabundo acabou por ser detido pela polícia, à minha frente, sem que me dissessem para onde o levavam, e nunca mais soube absolutamente nada dele. O contexto é outro totalmente diferente, mas há paralelismo na intensidade que senti desta vez em Maxaquene – Maputo, que pode ter o simples facto de se estar vivo, de se ser um ser humano e de se ter de sobreviver. E a solidariedade que existe sem o ser, de facto. Tal como me dizia a minha querida amiga Francisca, numa destas noitadas de “filosofiação” de europeus sob o cruzeiro do sul – é muito frequente assistirmos a factos simples do quotidiano, em que as pessoas se auxiliam entre elas, sem se conhecerem, e sem sequer trocarem uma única palavra ou mesmo um olhar. A ocasião está ali, as pessoas entreajudam-se, cada um continua a sua vida, e o acontecimento não é revestido de aspecto de caridade, nem de solidariedade, nem de nada, a não ser pura sobrevivência e seguir em frente, sem tempo para parar nem para queixas, tal como na perfeita metáfora pictórica que é encontrarmos, a cada instante, os africanos por essas estradas fora, a caminharem quilómetros a fio, sob um sol escaldante, com cargas tremendas sobre a cabeça, sem sequer darem ares de se aperceberem de que isso pode ser duro, mas apenas porque é assim e tem de sê-lo.
Bem sei que há, actualmente, uma certa crise de valores (não me agrada o lugar comum, mas parece-me que não há forma de fugir a esta denominação) no mundo ocidental – leia-se na Europa – e que os nossos hábitos burgueses nos tornam estúpidos, no que a palavra pode conter de mais inerte e descompassado, e que qualquer cenário mais exótico nos parece “a verdadeira essência da vida”. E depois vem o yoga, o tai-chi, o budismo, a cozinha indiana, as bugigangas de Marrocos, as expedições sul americanas, as estatuetas africanas de pau preto, e outras tentativas de reavermos a nossa alma, que perdemos algures no caminho… Não vou ser arrogante ao ponto de fazer crer que sou imune a esta epidemia ocidental e que ando por estas (e outras) paragens sem qualquer compromisso com essa carência e falta de identidade de europeu genuíno (paradoxo paradigmático?). Mas, de facto, e sem outros aprofundamentos das causas dos meus sentimentos no episódio de que falo, no fim-de-semana em Maxaquene (e não só), a simplicidade e a realidade de estar vivo ganharam espessura…
Por último, e apenas para estimular a imaginação de quem tenha tido a paciência de ler estas divagações (“pessoais e intransmissíveis”), conto apenas que dei por mim, na manhã de domingo, num dos bairros mais impenetráveis de Maputo, numa cerimónia de exorcismo de maus espíritos (zivuri), dentro de uma palhota com uma data de mulheres aos gritos a baterem noutra para lhe expulsarem os demónios, enquanto se contorciam e reviravam os olhos, tudo isto enquanto, em círculo à minha volta, me chamavam de Šikwembu (Xikuembo), que quer dizer Jesus, e me pediam para lhes discursar – o que, finalmente, tive de fazer, para que me deixassem ir embora…
Acabaram por não me bater também, porque consegui convencê-las de que não era portador de zivuri, mas não deixou de ser uma das situações mais surreais em que já me encontrei…!
Será que ainda há mais, depois disto…?
De qualquer maneira, já tenho a indicação de que caí nas boas graças deles e que sou bem vindo a assistir a outras cerimónias, porque gostaram muito de mim. Mas… será prudente…?
*Caros amigos com acesso a enciclopédias antropológicas e etnográficas: podem enviar-me actualizações sobre a realidade antropófaga do sudeste africano…?

sexta-feira, maio 26, 2006

26 Maio 2006 - Dia 14

















A rectificação do embasamento está aquém do louvável, mas aceita-se como minimamente satisfatória. No contexto em causa, olhando para as obras que decorrem no bairro e para os edifícios existentes, está muito acima da moda!
Aceite o trabalho dos dois panos de embasamento, procede-se ao enchimento do espaço entre eles, com areia do terreno limpa de raízes e matéria vegetal.
Já os próprios blocos de cimento tinham sido preenchidos com esta areia, com excepção dos blocos dos nós (cunhais e entroncamentos), que tinham sido preenchidos com a argamassa de assentamento dos desperdícios, recuperada ainda fresca.
Este preenchimento visa reforçar os pontos mais sensíveis, enquanto que o preenchimento com areia, para além disso, também confere mais massa e, consequentemente, maior inércia térmica, ao embasamento.
Para além disso, quando começámos a trabalhar com os blocos e vi a forma como eles se desfazem, fiquei com alguns receios da resistência do embasamento, quer ao próprio peso das paredes de taipa, quer ao ensopamento na estação das chuvas, quer, sobretudo, à vibração e ao impacto de bater taipas em cima delas…
Como amante do jazz, deito-me ao improviso de novo, e esboço uma adaptação do previsto, que discuto depois com a Patrícia e que envio por net à Teresa. Falamos pelo skype (viva o séc. XXI) e avançamos com novo golpe de rins.
A caixa entre os panos de blocos será preenchida com areia humedecida e compactada até perto do topo, ficando os 10cm superiores preenchidos com betão ciclópico ao traço 1:3:5, sendo os 5, na realidade, apenas 3 de gravilha e os outros 2 de desperdícios dos blocos de betão, para reutilização). As faces do embasamento serão rebocadas, para maior homogeneidade e resistência à humidade. Em volta do muro será executada uma caixa de gravilha, para drenagem rápida e eficaz das águas das chuvas, minimizando as hipóteses de longo ensopamento dos blocos – que, aqui, quando é para chover é a doer!
Sobre este muro de embasamento será executada uma camada de regularização para assentamento de uma tela de impermeabilização. Esta tela de impermeabilização é “improvisada” com plásticos – o resultado é exactamente o mesmo, porque utilizamos plástico grosso, e os custos e a disponibilidade são incomparáveis. Há que manter presente que o futuro mais provável para estes jovens será as obras de improviso, dadas as circunstâncias, e mais vale prepará-los para isso, que é mais fácil partirem daí para a sofisticação do que o percurso contrário.
Sobre a tela, será executada uma barreira anti-térmita, com 8cm de altura, que, como indica o nome, pretende impedir a presença terrível dessas formigas nas paredes que, não só permitiria o seu acesso até às madeiras, como poderia contribuir para a desagregação das próprias paredes de terra. E aqui (em África) as térmitas são mesmo um problema sério! Essa barreira anti-térmita terá a largura constante e exacta de 40cm e terá negativos para a passagem das agulhas (peças horizontais que sustentam as duas tábuas de taipal) para encaixe do taipal, e será “armada” com rede de galinheiro, para lhe dar maior resistência e permitir distribuir as forças dinâmicas durante a execução da taipa.
Improviso em sol maior…!

quinta-feira, maio 25, 2006

25 Maio 2006 - Dia 13


































As responsáveis da APOIAR, Laura Gonçalves Pereira e Teresa Schmidt, passaram pela savana africana hoje de manhã, e ficaram muito contentes com o aspecto dos ensaios de taipa e adobes e, depois de umas palavras de encorajamento aos alunos do curso, rumaram a norte, prometendo passar por cá de novo no próximo dia 2.
Entretanto, os alunos acabaram o muro de embasamento, com duas fiadas de blocos de cimento e dois panos.
Fez-se um controlo de qualidade, verificou-se os níveis, com auxílio da mangueira, e fizemos uma “visita guiada” à volta da obra, para apontar, uma um, todos os erros de execução e os porquês de terem sucedido e de não poderem suceder.
Confesso que me incomodam um pouco, esses momentos, de iconografia anacrónica, em que tenho uma dúzia de africanos a seguirem-me enquanto eu, de chapéu de palha, aponto os erros com um pau do tipo bengala e digo “Isto não foi bem feito e tens de fazer antes assim”…
Mas os complexos de europeu diluem-se na óptima relação que consegui estabelecer, em apenas 3 semanas, com a maioria dos alunos.
Dois deles, em particular, percebem os meus reais motivos de interesse “turístico”, e convidam-me para um fim-de-semana em território proibido – os bairros dos subúrbios de Maputo. Será neste fim-de-semana e, pelo que contam os que dizem que ouviram dizer, é território de perigo real…! Depois de ter sido alvejado em Belfast, em 2000, por curiosidade imprudente em território hostil, não será um boato destes que me impedirá de conhecer a vida real destas pessoas. Não perderei esta oportunidade por nada!
Mas, para já, é no embasamento que concentro atenções.
A componente pedagógica desta obra legitima as irregularidades de desnivelamento das fiadas, mas também exige, ainda mais do que em situações de obra corrente, a sua correcção.
Com o coração partido pelo suor destes miúdos sob o sol do meio dia africano, mas com a convicção de pedagogo responsável e consequente, mando remover boa parte dos blocos e tornar a assentá-los em condições, com respeito por alinhamentos, níveis e verticalidades.
É que a tecnologia que por aqui se encontra resume-se a pouco mais do que o meu portátil onde tomo estas notas, pelo que tudo é feito de forma manual.
Com frequência os alunos que seguirem pelo ramo da construção encontrarão situações de enorme carência de recursos na execução de obras, pelo que os pareceu mais adequado e proveitoso para eles apoiar os trabalhos em execução manual e simples.
Portanto, tudo é feito de forma manual – e tudo quer dizer tudo, incluindo as intermináveis horas a misturar argamassa e betão.
E hoje o sol queima…!

quarta-feira, maio 24, 2006

24 Maio 2006 - Dia 12
















































































É com grande prazer, quer para mim quer para os alunos – que se renderam ansiosamente à taipa – que passamos a manhã em ensaios de taipa e adobes.
Passei pela carpintaria onde nos fizeram os moldes de adobe e o estojo de taipa, e pedi algumas aparas de madeira, para juntar à terra para algumas experiências. Penso que deve resultar bem, sobretudo nos adobes, e sendo um material que disponível neste local, poderá ser uma opção interessante.
Na semana passada tinha tido a ideia de usar fibras de coco nos adobes, e a Teresa achou boa ideia e tratou logo de arranjar alguma, para uns ensaios.
Então batemos mais três blocos de taipa e fizemos 4 ensaios de adobes.
Para cada bloco de taipa e para cada molde de ensaio de adobe (cada um com seis blocos) usámos diferentes misturas de terra.
Assim, incluindo os ensaios de ontem, realizámos, no total, blocos com os seguintes traços:

Taipa:

T1 (ontem)
50% terra (2baldes = 20l)
50% pó-de-pedra (2baldes = 20l)

T2 (ontem)
45% terra (2baldes = 20l)
45% pó-de-pedra (2baldes = 20l)
10% cal (4l)

T3 (ontem)
45% terra (2baldes = 20l)
45% pó-de-pedra (2baldes = 20l)
10% cimento (4l)

T4
43,5% terra (2baldes = 20l)
43,5% pó-de-pedra (2baldes = 20l)
13% serradura (6l)

T5
43,5% terra (2baldes = 20l)
21,75% pó-de-pedra (1balde = 10l)
21,75% gravilha (1balde = 10l)
13% serradura (6l)

T6
45% terra (2baldes = 20l)
22,5% pó-de-pedra (1balde = 10l)
22,5% gravilha (1balde = 10l)
10% cimento (4l)

(adobes)
A1
41,5% terra (2baldes = 20l)
41,5% pó-de-pedra (2baldes = 20l)
17% serradura (8l)

A2
62,25% terra (3baldes = 30l)
20,75% pó-de-pedra (1balde = 10l)
17% serradura (8l)

A3
60% terra (3baldes = 30l)
20% pó-de-pedra (1balde = 10l)
12% serradura (6l)
8% cal (4l)

A4
60% terra (3baldes = 30l)
20% pó-de-pedra (1balde = 10l)
12% serradura (6l)
8% cimento (4l)

Todos os ensaios de adobe foram feitos com o molde completo (6 blocos) e, com a terra sobrante, fez-se um sétimo bloco, adicionando um pouco de fibra de coco.
6 Blocos de adobe acabados (30x15x10cm) têm a mesma volumetria do que 1 bloco de taipa (30x30x30cm), que é de 0,027m3.
Na taipa, a terra não chegou para completar todo o molde.
Nos adobes sobrou e deu para fazer um sétimo bloco, com altura variável, conforme a percentagem de terra e pedra (com a água, quanto mais terra, mais incha a mistura).
Todos os provetes de taipa estão com excelente aspecto.
O insolente de serviço (há sempre pelo menos um em cada turma…) resolveu sentar-se num deles (o 2, estabilizado com cal) logo algumas horas depois de o termos feito e, apesar de andar a abanar-se lá em cima antes de eu dar por isso, o bloco ficou perfeitamente intacto.
Ainda não sei se terá a consistência necessária, mas o bloco T1 é o que mais me agrada, em conjunto com o T5.
Se estes blocos, que não têm cimento nem cal, apresentassem características boas, seria uma óptima novidade, porque permitiria uma economia grande de custos e recursos, e uma aplicação “mais pura” da técnica, apenas com a terra, sem qualquer alteração química!
A terra solta, mesmo com alguns testes de campo que lhe fiz, parece pouco coesiva e muito arenosa, com alguns silts, mas como pertence à família das laterites, tenho alguma esperança de que possa endurecer muito com a compactação e a oxidação posterior. Veremos…
Da parte da tarde começámos com a primeira fiada de blocos do embasamento.
Acabámos cerca de 75% dela, com ambos os panos em simultâneo.
O nivelamento da face superior viga foi desprezado, na altura em que os alunos a fizeram, e agora estão a aperceber-se, pela via empírica e dura, da razão pela qual eu os alertava tanto para terem cuidado com isso – é que agora têm de andar a cortar blocos para alinharem a face superior com as guias de nível. E como os blocos se desfazem se os tentarmos cortar ou partir, a solução que improvisámos foi raspá-los na base de cimento e desgastá-los até à medida – como se os limássemos. Foi um processo bem menos moroso e difícil do que eu pensava ao imaginar este improviso, o que ilustra bem a qualidade dos blocos…

terça-feira, maio 23, 2006

23 Maio 2006 - Dia 11

































































A manhã foi preenchida com a colocação dos blocos de canto, nos cunhais do embasamento, para definição de alinhamentos e para nivelamento das fiadas. Depois será só preencher o espaço entre os topos, alinhando pelo fio de referência que estenderemos ao longo de cada troço.
Todos estes procedimentos obrigam a uma ginástica enorme, quer de memória (sobretudo visual), quer de interpretação e improviso.
Nós somos, todos os três, arquitectos, e estamos a desempenhar, simultaneamente, os papéis de arquitecto, de engenheiro, de empreiteiro, de encarregado de obra, de gestor de obra, de contabilista, de pedreiro e de servente.
Não chega saber, por exemplo, que os tijolos têm de ser colocados de nível, é preciso saber como conseguir fazê-lo; não chega saber que o betão armado é betão com ferros lá dentro, é preciso saber qual é a melhor maneira de fazer o betão e de o misturar bem, que tem de se vibrar e como, que diâmetro têm os ferros de armadura, como colocá-los, como estribá-los, como amarrar esses estribos, como executar todas essas coisas na prática e com que ferramentas…
Eu tive algumas experiências de seguir obras, e trabalhei nalgumas como operário e servente (uma vezes para aprender, outras para sobreviver – como, por exemplo, quando estava a estudar no estrangeiro, inclusivamente quando fazia o mestrado em construção em terra), mas em alguns casos tenho de tentar lembrar-me de como costumo ver os operários (os bons) a fazer, em obras que sigo ou que observo, ou de cujo projecto sou autor. É uma infinidade de pormenores que surgem todos de repente, e em sequência imediata.
Só a questão de definir bem o material a comprar e todos os utensílios (desde as evidentes pás até ao dimensionamento das tábuas de cofragem e forma de as fixar). Um óptimo exercício.
E depois os improvisos… Hoje houve um problema com a bomba que extrai água do furo para abastecimento do bairro (não há rede pública, na savana africana, entenda-se…!) Como os bidões (que aqui chamam de tambores e por isso é que não os conseguiram comprar antes da nossa chegada) ainda não vieram, não tínhamos água, e então foi preciso ir pedir bidões plásticos de 20l às mulheres do bairro que se abastecem na fonte manual e ir dar a bomba e transportar água até encher dois carrinhos de mão e alguns baldes e regadores, para haver água para a argamassa de assentamento dos blocos do embasamento. A propósito, essa argamassa foi ao traço 1:3, e os blocos são de 40x20x10cm, ocos e de muito mau fabrico…
Vamos fazer um embasamento com 40cm de espessura (a mesma da das paredes de taipa) constituída por um pano exterior e outro interior, ambos com 10cm. Os 20cm entre os dois panos de blocos serão preenchidos com a areia das escavações, para os apoiar melhor e melhorar a estrutura da fundação e, sobretudo, para criar mais massa e, consequentemente, mais inércia térmica.
Finalmente, os moldes para ensaios de taipa estão prontos! Por isso, a parte da tarde é dedicada a uma breve explicação de como se faz a taipa, seguida de uma demonstração de preparação de terra e contacto com o estado hídrico ideal desta para bater taipa, que culmina na realização de 3 blocos de estudo, cada um com 30x30x30cm. Estes ensaios destinam-se a determinar qual a combinação mais adequada de terra, pedra e estabilizante para o nosso fim.
Assim, realizamos um bloco com 50% de terra e 50% de gravilha. Esta gravilha é cinzenta escura, parecendo-me de xisto, e muito partida, de maneira que por aqui se chama a isto (que nós chamamos de bago de arroz) de pó de pedra.
Um segundo bloco foi realizado com 45% de terra, 45% de “pó de pedra” e 10% de cal aérea em pó, e um terceiro com 45% de terra, 45% de “pó de pedra” e 10% de cimento.
A vontade seria de utilizar a terra sem adição de estabilizante, mas ela não me parece muito adequada a isso, porque é muito arenosa. Desde o primeiro minuto em que olhei para ela que achei que era “perfeita” para BTC (blocos de terra comprimida), mas teremos de a utilizar também em taipa e adobes, porque o objectivo central do curso não é a construção de uma casa, mas a vertente pedagógica e a formação, pelo que temos de abordar, pelo menos, as três técnicas “principais” – taipa, adobe, BTC. Estivemos a tentar introduzir o tabique (ou pau-a-pique), mas ainda não temos a certeza de o conseguir fazer…
Utilizando estabilização, seria nossa vontade preferir a cal, mas a questão é delicada, uma vez que a cal não só é mais difícil de encontrar aqui no sul do país, como é mais cara que o cimento quase 3 vezes – logo é anti-pedagógico recorrer a um material que os alunos dificilmente poderão utilizar no futuro, ao invés de sermos mais realistas e prepará-los para o que vai ser a realidade futura deles – a utilização de cimento. Também por isso aguardo, ansiosamente, a chegada da prensa de BTC que comprámos da África do Sul.
Hoje, quando descofrámos o primeiro bloco de taipa, a cara de espanto e de satisfação dos alunos assemelhava-se ao que se poderia dizer “descobriram a pólvora”. Ainda por cima, por causa da granulometria fina desta terra, os blocos ficaram com um aspecto impecável e muito homogéneo, e com uma cor lindíssima, que é o tom avermelhado da terra.
As reservas que alguns tinham, em relação a esta técnica, desapareceram de imediato, e alguns dizem já que vão construir ampliações da sua própria casa utilizando a taipa.
Foi um bom final de dia, e todos ficaram muito motivados para começarem a ver a casa surgir da terra.
Amanhã vamos fazer mais uns ensaios de taipa, com “receitas” diferentes, e também fazer alguns adobes.
Parte da motivação e da alegria dos alunos esta tarde, deve ser motivada pelo meu anúncio, no final da manhã, de que iriam ter direito a alimentação, a partir do dia 1 de Junho. A reacção foi de surpresa absoluta e de euforia total, começando todos a bater palmas e numa alegria desmedida.
Um dos pontos mais altos da minha estadia por cá, até ao momento…!

segunda-feira, maio 22, 2006

22 Maio 2006 - Dia 10



































Hoje apareceu-me um novo aluno, a pedir para frequentar o curso, porque só agora tinha sabido da existência dele.
Interpreto isso como verdadeiro interesse, e digo-lhe que sim, sobretudo depois de saber que tem experiência de construção em caniço e de palhotas.
A Patrícia Bruno dá a sua aula sobre Higiene e Segurança no Trabalho e sobre Organização de Estaleiro de Obra.
Conta-me que o que mais a impressionou foi a gargalhada e o espanto entre os alunos quando ela fala dos contentores de lixo na obra. Quem se passeie por Maputo percebe o motivo dos risos. A cidade é uma sucessão de lixeiras, porque o sistema de recolha de lixo é surreal – as pessoas despejam o lixo para um montão (uma autêntica lixeira a céu aberto em cada rua e esquina) e depois há umas pás mecânicas que carregam isso para atrelados de tractores ou camionetas de caixa aberta!
Toda esta situação, aliada aos buracos nas ruas e consequentes poças de água, e toda a insalubridade generalizada é que fazem com que, após uma situação estável, no tempo das colónias portuguesas, este país esteja de novo invadido pela malária (que está erradicada de países bem maiores como, por exemplo, a África do Sul, mesmo aqui ao lado).
Da parte da tarde falo-lhes sobre as questões do aparelho de alvenaria e da importância de o calcular bem, com a questão das juntas e as formas de preparar e aplicar a argamassa de assentamento e os procedimentos e cuidados a ter na execução de uma alvenaria – vamos realizar uma alvenaria de duas fiadas duplas de blocos de betão no embasamento, para elevar as paredes de taipa do nível do chão, por causa das fortes e súbitas chuvadas torrenciais que aqui caem, sobretudo no Verão (Novembro e Dezembro).
Entretanto defini pormenores com o Centro de Lazer, a propósito da alimentação dos alunos, e está tudo combinado para que entre em vigor a partir do próximo dia 1 de Junho.
Enquanto isso, a vida quotidiana no bairro continua a seduzir-me.

domingo, maio 21, 2006

21 Maio 2006 - fim-de-semana




















Hoje, em Maputo, a Teresa falou com as responsáveis da ONG APOIAR, e elas declararam-se totalmente a favor da atribuição de refeições aos alunos, sem hesitações, até ao final do curso.
Foi uma óptima notícia, que vou gostar de dar aos alunos!

sábado, maio 20, 2006

20 Maio 2006 - fim-de-semana

































Nova investida aos bastidores da operação taipa. Travessia, a partir do cais de Maputo, num barco apinhado, de características difíceis de crer, noutros contextos, até Catembe.
Ao final da tarde fiz questão de assistir a uma encenação de uma peça de que gosto muito e da qual já vi algumas encenações – Na Solidão Dos Campos de Algodão (de Bernard-Marie Koltès). Mas esta encenação, do grupo galagalazul, foi muito fraca…
Depois foi a primeira incursão no sub mundo bas-profond de Maputo. Zona da baixa, noite avançada, ruas de má fama e boa inspiração (disto não mostro fotos...!)

sexta-feira, maio 19, 2006

19 Maio 2006 - Dia 09










Como é o último dia em que a Teresa está cá (regressará em Julho, para o final do curso), resolvemos fazer uma manhã inteira dedicada à revisão de todos os temas que já foram abordados. Constato, com satisfação, que temas como a triangulação e a interpretação de desenho técnico ficaram minimamente entendidos. Em contrapartida, o cálculo de áreas e volumes não está muito sólido, e, por ser de carácter mais científico, é notório o desinteresse de alguns…
Após todas as respostas a dúvidas e uma breve revisão da matéria dada, a Patrícia dá uma breve introdução da aula de segunda-feira, em que falará de Segurança e Higiene no Trabalho, e de Organização de Estaleiro de obra.
Correndo o risco de os habituarmos a maus hábitos, damos a tarde de borla, para podermos aproveitar o único dia em que estaremos os três cá para definirmos uma série de coisas para o futuro.
Fim-de-semana à porta. Maputo de novo.

quinta-feira, maio 18, 2006

18 Maio 2006 - Dia 08
















Para coroar o espírito de equipa, começo o dia por lhes oferecer um par de luvas a cada um, que a Teresa tinha comprado na sua ida a Maputo, ontem, para adquirir material e ferramentas em falta e para ir ao aeroporto receber a Patrícia, que chegou de Lisboa para participar neste projecto durante os próximos dois meses.
A logística para fazer funcionar este curso está quase inteiramente a nosso cargo, e temos mesmo de nos desdobrar para conseguirmos arranjar todo o material, para que os operários da carpintaria nos construam os moldes para os adobes e os taipais, para que chegue o cimento e a areia, etc, etc, etc. Tudo isto enquanto damos as aulas, afinamos o projecto, fazemos as medições para compra de material e preparamos o curso diariamente, adaptado à realidade que aqui encontrámos e às circunstâncias do dia a dia.
De facto, se não estivéssemos cá sempre dois, isto seria mesmo muito complicado de fazer…!
Os alunos deliram com as luvas e, após escreverem o nome nelas, posam vaidosos para a foto de grupo.
Em seguida damos início ao que, provavelmente, será o dia mais duro de toda a obra – fazer a viga de fundação em betão armado. Claro que nem pensar em betoneira ou qualquer outra maquinaria. Tudo é feito à mão, e a electricidade nem existe na obra. Daí que preparar cerca de 13 metros cúbicos de betão, com pás e baldes, tendo a necessidade de acabar tudo nesse dia (para que a presa do betão se dê homogeneamente e a viga fique mais sólida) seja obra! O betão é transportado em carrinhos de mão e despejado, e é “vibrado” espetando-lhe a pá.
Alguns desanimam um pouco, mas mantêm presente que este será o dia mais duro de todos e que, depois de ultrapassado, ficarão autores de uma bela obra – que já se gaba, aqui pelo bairro, entre os pedreiros (chamemos-lhes isso, apesar de ser um enorme elogio…) de outras obras aqui em curso.
Conseguimos acabar…!
Mas o dia, para mim, ficou marcado porque descobri que a esmagadora maioria dos alunos só come uma vez por dia, ao jantar – e, muitas vezes, esse jantar é farinha de mandioca…
Descobri-o porque os alunos estavam com muito fraco rendimento no trabalho e, com a dureza do dia, tinha muitos agarrados à barriga a dizerem que tinham fome e que não tinham forças. Aí propus que terminássemos a parte da manhã mais cedo para irem almoçar e que regressassem mais cedo para a sessão da tarde, mas disseram que preferiam continuar sem parar, para saírem para casa mais cedo, ao final do dia, porque não valia a pena pararem para almoçar, porque nessa pausas costumam apenas ficar por ali, porque muitos não têm nada em casa para comer…
Depois de me sentir desconfortável ao almoço, a comer o frango do costume que por cá se prepara e que, neste dia, achei uma requintada delícia, senti-me ainda pior ao estar a exigir a “putos” famintos e sem moral que trabalhassem bem, porque tínhamos de acabar ainda hoje…!
Achei que a situação era inadmissível, e tratei logo de ver o que se podia fazer.
A Francisca – uma voluntária que está cá a trabalhar com as muitas crianças do bairro – disse-me que os alunos da escola profissional de cá podem comer no Centro de Lazer por 350 contos (350.000 meticais – equivalente a pouco mais de 10€) por mês cada, com direito a “mata-bicho” (pequeno almoço), almoço e jantar todos os dias de semana.
Falei com a Teresa Beirão, que imediatamente concordou comigo, e decidimos expor o assunto à ONG APOIAR (que promove e financia este curso) no sentido de que alguma verba destinada ao curso seja canalizada para a alimentação dos alunos. Ao fim e ao cabo, estamos também a utilizar a mão-de-obra deles para uma obra que ficará para usufruto do bairro.
E estamos a falar de doze alunos, portanto cerca de 125€ por mês, para alimentar todos eles, com três refeições por dia! Não me parece sequer discutível. Mas vamos ver o que dizem…

quarta-feira, maio 17, 2006

17 Maio 2006 - Dia 07






























































O Carlitos chegou atrasado e chamei a atenção a todos para o facto de toda a equipa estar à espera, sem produzir, enquanto o encarregado não chega, pelo que este tem forçosamente de chegar a horas!
Em seguida tomou conta das operações, e passou-se mais ou menos o que eu esperava, com excepção para a surpresa, pela positiva, que foi a postura responsável dele, contrária ao que a indisciplina das aulas deixaria prever. Prova que algumas pessoas precisam apenas de um estímulo e que se confie nelas, para se motivarem e fazerem coisas positivas.
Mas foi curioso verificar que as minhas indicações e recomendações de que ele seria o responsável pelo andamento da obra, pelo material e seu estado, utilização, limpeza e armazenamento, pela qualidade dos trabalhos e equipas e pelo desempenho geral criaram uma noção inicial de que deveria ser ele a fazer tudo.
Só após algum tempo é que ele se convenceu de que não podia fazer nada do que os outros fariam, para poder estar sempre a coordenar e controlar os trabalhos e a qualidade.
Começo a interessar-me cada vez mais pela faceta humana deste projecto.
Cada vez mais a terra e a taipa se tornam secundárias e me interesso mais em pensar em como é que estes “miúdos” podem ficar preparados para apresentarem trabalho de qualidade, em como é que podem apaixonar-se por isto e desempenhar a sua função com qualidade e com condições dignas, e como é que podem aspirar e chegar a ter um emprego nesta área e condições de vida um pouco mais decentes. Batalho muito em convencê-los de que não lhes chega saber o que lhes ensino, têm de saber fazê-lo e bem, e trabalharem como equipa. Insisto muito neste ponto do espírito de equipa e da organização.
Aplicamos um betão sobre o enrocamento que tínhamos colocado no fundo das valas de fundação. Este betão, ao traço 1:5:2, é bastante líquido, para que escorra por entre os espaços do enrocamento e sirva para lhe dar mais união e apenas para regularizar o topo, para aí montarmos os ferros de armadura, o que fazemos no final do dia, após amarrar os estribos.
O trabalho é relativamente bom (se tivermos em conta que são miúdos, quase todos sem experiência ou com muito pouca, e a aprenderem), e a coordenação do Carlitos é motivo para irmos até à sala, no final do dia, para comentarmos o que se passou.
Algumas críticas por alguns não quererem acatar ordens de “um puto”, mas muitos elogios à forma como ele conduziu os trabalhos.
No final, eu subscrevo os elogios, e falo-lhes da necessidade e do proveito de se criar o tal espírito de equipa. Refiro-lhes que, se trabalharem bem serão bons, mas se trabalharem bem em equipa, serão os melhores. Mais umas palavrinhas aqui e ali, alguma inspiração do momento, e a aula termina com grande moral, com todos os alunos, espontaneamente, a baterem palmas e a sentirem-se muito motivados e contentes por pertencerem a este grupo e estarem envolvidos neste trabalho.
Mesmo que não tivesse vivido todos os momentos excelentes que já por cá vivi, o ambiente que senti naqueles 15 minuto de final de aula já justificariam a minha vinda cá! Ganhei o dia!

terça-feira, maio 16, 2006

16 Maio 2006















Breve abordagem ao cimento, à areia e à gravilha, condições de utilização, forma de preparação, traço e dosagens.
Em seguida foi a árdua epopeia dos volumes.
Explicar o óbvio pode ser bem menos óbvio do que eu pensava.
Ao tentar explicar como se obtém a área de um triângulo rectângulo, para depois se obter o volume de um qualquer polígono, constato, já em estado avançado da aula, que muitos deles nem sequer conhecem o conceito de ângulo…!
Fazemos vários exercícios de cálculo de volumes e calculamos o volume das fundações do nosso edifício, ao que aplicamos o traço que vamos utilizar (1:4:4) para calcularmos o volume total de cimento, areia e gravilha de que precisamos.
Para criar uma maior noção de responsabilidade e para fazer com que aqueles que se limitam a fazer o que lhes mandam se apercebam de todas as facetas e pormenores de uma obra, criei uma escala entre os alunos para que cada um deles seja, por um dia, encarregado da obra.
Para não haver qualquer subjectividade, a escala começou pelo aluno que está sentado mais perto da porta e segue rodando um a um. O primeiro é o Carlitos, que terá uma tarefa difícil, já amanhã, porque não só é o primeiro como é o mais novo – tem apenas 16 anos. Mas é um rapaz vivaço e, apesar de ser um pouco indisciplinado (também fruto da idade) confio nas capacidades dele, porque é um dos mais espertos do grupo.






segunda-feira, maio 15, 2006

15 Maio 2006











































A manhã toda ocupada com a revisão de tudo o que foi ensinado até agora.
Constata-se, de facto, que a ausência de questões ou dúvidas na sala não tem rigorosamente nada a ver com ausência de compreensão, mas apenas com o verdadeiro significado da palavra “sim”.
Quando não percebem algo, os alunos continuam a dizer que “sim”.
Mais arrepiante torna-se o novo contexto em que as afirmações de conteúdo negativo são validadas. Exemplo:
- Percebeste tudo?
- Sim.
- Não tens dúvidas?
- Sim.
Ora, qualquer lusófono mais desprevenido pensaria uma de três coisas: não percebeu a pergunta / está a gozar comigo / é maluquinho…
Mas não! Trata-se da validação da minha afirmação. Ou seja, ao perguntar “Não tens dúvidas?” o aluno responde “Sim” para validar a minha frase “NÃO tens dúvidas”. Querendo, portanto, através de um “sim”, dizer, de facto, “não” – algo do tipo: SIM, é verdade que NÃO tenho dúvidas.
Parece complicado? Experimentem ensinar métodos de cálculo de volumes, com conversão de unidades e expoentes da unidade a alunos que quase só falam Xangana e Ronga, para verem o que é realmente difícil…
È o que farei amanhã…
Pela tarde criámos uma eira, para termos uma plataforma de trabalho para fazer argamassa e betão, e para misturar a terra para a taipa. Fizemos uma plataforma em argamassa de cimento e areia (1:5) com cerca de 2m de diâmetro, entre o local onde temos os montes de terra, pedra, gravilha e areia e a área de implantação do edifício a construir.
Em seguida fizemos os estribos para a armadura da viga de fundação. O encarregado da serralharia nunca mais executa o trabalho, e cada vez que lhe peço para se despachar, diz-me que precisa de mais um disco de corte, que cada dia tem um preço diferente (sempre para mais, claro) e de dinheiro para o transporte para o ir comprar e mais isto, e mais aquilo… Decidimos, então, que até é vantajoso, pedagogicamente, serem os próprios alunos a dobrarem os varões para fazerem os estribos.
Vamos utilizar uma armadura muito suave, de apenas dois varões de 8mm, estribados com varão de 6mm. A viga terá uma secção de 20x50cm, uma vez que as paredes terão 40cm de largura e, consequentemente, o muro de embasamento será de igual espessura.

sábado, maio 13, 2006

13 Maio 2006 - fim-de-semana














































































Moçambique não será apenas obra.
A beleza de algo não resulta da descoberta da sua forma aparente, mas da compreensão das partes que se unem para lhe darem existência (Artur Quaayayp)
Quando anunciei ao meu caro amigo e ex-professor do CRATerre, Sebastien Moriset, que ía construir um blog para deixar elementos sobre esta experiência, ele disse-me que, em vez de “perder” tempo agarrado a um computador, deveria era ir beber umas cervejas com a população para compreender melhor as pessoas e o que elas desejam e do que precisam. Disse-lhe que pretendia fazer isso e que sabia que ter essa consciência seria a única forma de as atingir com resultados benéficos, de as perceber e de conseguir, a pouco e pouco, construir um enredo e uma relação que possam ser, de facto, produtivas e compensatórias para estas pessoas, que pouco têm e muito gostariam de ter.
Nessa perspectiva estóica, toda a Laurentina que me chega às mão deixa de ser um desleixo boémio e passa a ser uma missão de trabalho, o que calha bem para a consciência responsável de europeu ocidental. E, para tentar compreender estes povos (os vários que se juntaram dentro desta fronteira e que convergiram para a zona de Maputo) este país e esta realidade, aproveita-se todos os momentos livres para “trabalho de campo”.
Neste fim-de-semana, nova incursão a Maputo (tal como no anterior) e à praia da Macaneta, a casa do Sr. Machado da Graça – iluminado e resistente jornalista local, e pai da minha cara amiga Sara - com apresentação pessoal ao Oceano Índico (o tal povoado de tubarões tigre, martelo e primos destes…)
As jornadas fora de Maputo e de zonas urbanas são entusiasmantes: Partir cedo para poder chegar a qualquer parte (o “já ali”, tão alentejano, também existe por cá, mas aqui aplica-se a 500km e um dia inteiro de viagem por estradas surreais). Não se aproximar demasiado dos rios, porque há jacarés com fartura e fome (fartura deles e fome neles..!). Nunca molhar, sequer, as mãos em poças, lagos ou ribeiros, por causa de parasitas, sobretudo a Matacanha. Pelas mesmas razões, não andar descalço (o mais provável, para quem quer ir à praia, é não ter escapa possível aos parasitas da areia, mas vale o custo). Depois ter muito cuidado com o sol abrasador, mas não beber água em nenhum lado, por causa de cólera, tifo, parasitas, coliformes, etc., etc. Ir ao banho no mar, mas sempre com o olho na linha da água, não vá andar por ali uma daquelas barbatanas triangulares muito comuns por estas águas. Sair para almoçar, mas lavar muito bem os legumes e tirar a casca à fruta. Encharcar-se em repelente, porque a malária abunda, e evitar o lusco-fusco, por ser o período de proliferação de mosquitos. Caminhar sempre pelos trilhos, para não se ouvir um “click”, mesmo antes de, na melhor das hipóteses, se perder uma perna. Mesmo assim, cuidado com os pezinhos, porque as “nhocas”, entre as quais a mamba – uma das serpentes mais perigosas do mundo, por ser territorialista e atacar apenas por se entrar no seu perímetro – andam por aí. Voltar para casa antes da noite, por causa da bandidagem, cuidado com as crateras na estrada e, sobretudo, com os polícias corruptos!
Ainda assim, a beleza é indescritível e a vida sabe a verdadeira, por estas partes.

sexta-feira, maio 12, 2006

12 Maio 2006 - Dia 04













































































A obra atrai-os bem mais do que a sala de aulas, o que não nos espanta minimamente (apesar de não estarmos à espera de que o nível de concentração e aprendizagem nas aulas teóricas fosse tão baixo assim). Mas, por sabermos que eles não iriam conseguir estar muito tempo encerrados numa sala, a encherem as medidas de conhecimentos teóricos novos, tivemos o cuidado de esboçar um programa que intercalasse componentes teóricas com práticas, permitindo uma “descompressão” de cada uma das partes, para evitar sobrecargas e consequentes desmotivações.
Assim, cada vez que introduzimos uma matéria mais pesada ou uma aula teórica mais prolongada, aliviamos a sequência com uma componente prática mais demorada. Por isso, depois da epopeia das triangulações e da marcação de níveis, resolvemos terminar a semana de forma mais ligeira, dedicando a parte da manhã à limpeza do terreno e à abertura de valas para fundações, seguida da colocação de uma camada de enrocamento para receber a viga de fundação, e dando a tarde livre – “borla”, como chamam por estas bandas ao que chamamos de “furo”.
Como o terreno é muito arenoso, é muito fácil de cavar e de formar as valas na perfeição, o que nos poupa tempo material e dinheiro, porque evita ter de fazer cofragens para a viga.
Apesar dos meus apelos, muitos dos alunos apareceram descalços na obra, havendo, inclusivamente, aqueles que vieram de chinelos ou sapatos, mas que os tiraram para trabalhar, para não os estragarem. Isto torna-se mais impressionante quando assisto à forma como esses cavam: Espetam a pá no terreno e calcam-na com o pé descalço, para a enterrarem bem! Pior ainda, só quando colocam o enrocamento de assentamento da viga de fundação e andam por cima da pedra partida descalços…
Quando a Patrícia chegar, na próxima semana, directamente da “velha Europa”, com as suas apresentações PowerPoint sobre Higiene e Segurança no Trabalho, receio que vá ter de executar um rápido e vigoroso golpe de rins…! É que ainda não registei aqui esse facto, mas o curso foi preparado para ser apresentado com forte componente gráfica, intensamente apoiado em apresentações PowerPoint, mas, no dia em que chegámos, não tínhamos projector data show, nem computador na sala (como previsto e anunciado), nem sequer giz e apagador para o quadro e, inclusivamente, nem sequer o próprio quadro, e nem mesmo a própria sala! (já para não dizer, como disse há alguns dias, nem sequer alunos!!!)
Mas, como sempre me convenço nas situações adversas, para não desanimar, ad augusta per angustia.
E, tal como os alunos na obra, também eu me sinto descalço, por aqui. Aliás, o livro com o qual nos temos identificado, nestes dias, é “O Arquitecto Descalço”, que é uma interessante obra que nos foi gentilmente emprestada pelo arqº Bartolomeu Costa Cabral e que propõe uma série (extensa) de soluções de recurso e semi-improviso para situações com poucos meios e recursos disponíveis, onde a construção também passa pela reinvenção de sistemas, pela adaptação de materiais e soluções, pela assemblagem e reutilização – em suma, pela feitiçaria e alquimia.

quinta-feira, maio 11, 2006

11 Maio 2006 - Dia 03















Para que os alunos possam, futuramente, executar obras “a sério”, em vez de os enviarmos directamente para uma espécie de clandestinidade, houve a preocupação de, neste curso, introduzir um programa que os inserisse no contexto dos procedimentos inerentes ao processo de uma construção e que possibilitasse a eficaz interacção com todos os possíveis parceiros nesse processo.
Assim, para além de aulas futuras em que se abordará temas como a segurança na obra, a organização de estaleiro, as medições, compra, armazenamento e gestão de materiais, equipamentos e recursos, hoje tivemos a primeira aula dentro desta vertente mais complementar do trabalho de construção civil, dedicada à correcta interpretação de desenho técnico, incluindo a compreensão das noções e características de desenhos de planta, corte, alçados e detalhes construtivos, e respectivos códigos de representação gráfica.
Procurando que todos os conhecimentos teóricos adquiridos durante as aulas sejam sempre enquadrados numa perspectiva muito prática e utilitária pelos alunos, procedemos, de imediato, à transposição dos desenhos de projecto do edifício a construir por eles para o terreno, introduzindo as técnicas e métodos de nivelamento do terreno, nomeadamente através da utilização da mangueira de nível e das estacas e guias de referência.
É gratificante constatar a súbita compreensão dos conhecimentos teóricos que a experiência empírica provoca nos alunos – sobretudo, e com maior intensidade e quase surpresa, naqueles com fracos níveis de escolaridade e menos habituados a estudar e a assimilarem informação teórica e conhecimentos científicos – dos doze alunos, apenas dois têm o 12º ano (ou classe, como por aqui se diz), um tem o 9º, dois têm o 8º, três têm o 7º, outros três têm o 6º, e um tem apenas o 5º!

quarta-feira, maio 10, 2006

10 Maio 2006 - Dia 02

































































Noções de geometria, sistema de triangulação e regra 3-4-5, para marcações no terreno.
Depois, exercícios reais de marcação de plantas “inventadas”.
Alguns deles ontem já perguntavam “Vamos só escrever? Não vamos fazer nada prático?”
Note-se que isto foi cerca de 15 minutos depois de começarmos a primeira aula teórica…
De facto, só dois alunos têm o 12º ano, e os outros variam, havendo mesmo quem tenha apenas o 5º.
E nem pensar em fazer paralelismos com o nosso ensino, porque o nível é, de facto, muito baixo, quer em termos de conhecimentos adquiridos, quer, inclusivamente, em termos de capacidades de raciocínio científico, de aprendizagem, de concentração e de espírito crítico…
Acrescente-se que muitos deles escrevem muito mal (mesmo muito mal) e alguns nem falam nem percebem português com facilidade plena (e os meus conhecimentos de Ronga e de Xangana ainda são escassos…)
Da parte da tarde, marcação de eixos no terreno de obra.
Entretanto, dadas as condições e todo o contexto, achámos por bem alterar o projecto radicalmente – na sua forma, implantação e, inclusivamente, função.
A ideia inicial era a de construir uma casa para uma das famílias, servindo essa de protótipo para outras futuras.
Isto encerrava dois problemas “filosóficos”:
O primeiro era que, se queríamos que a construção fosse pedagógica, ela teria de abarcar uma série de situações possíveis e de enfrentar uma série de dificuldades técnicas criadas previamente com o intuito de aguçar o engenho dos formandos na sua resolução. Isto originaria que a casa a construir fosse maior, melhor e mais elaborada que as existentes (que são de condições muito insatisfatórias – mesmo para casas de realojamento…), o que poderia dar azo a mecânicas sociais pouco positivas, dentro do bairro (sobretudo dando origem a sentimentos de privilégio ou injustiça, uma vez que as casas são atribuídas igualmente a todas as famílias).
O outro problema era o de se poder vir a entender que a utilização de terra crua na construção (presente nas populações rurais noutras partes do país) era, de alguma forma, um retrocesso face à utilização do betão, e que isso constituía um abandono da qualidade das construções atribuídas.
Para evitar estes possíveis problemas, resolvemos construir um edifício de apoio à casa existente destinada a receber os voluntários que para aqui vêm trabalhar na comunidade por períodos mais ou menos demorados.
Esta casa dos voluntários é, actualmente, a única (para além dos alojamentos da comunidade religiosa que rege este bairro) que tem água canalizada e instalações sanitárias incorporadas – as restantes casas do bairro têm um sistema de latrinas (individuais, por cada fogo) no fundo da machamba (horta).
Assim sendo, mostrar à comunidade que estas pessoas “evoluídas”, vindas do “ofuscante mundo ocidental” e com capacidade económica para virem até Moçambique “passar uns tempos a ajudar os pobrezinhos” escolheram a terra como material para construir a sua própria casa, onde vão ficar alojados, mesmo depois de já terem uma em betão, pode ser o melhor catalizador para a futura aceitação desta técnica na zona.
Como quando se apresenta um projecto a um cliente: não chega que ele goste, é preciso que ele o passe a desejar!

Entretanto, continuamos a tentar que o material seja acabado, comprado, construído…

terça-feira, maio 09, 2006

09 Maio 2006 - Dia 01
























































Primeira aula, um dia depois do previsto, o que já não é mau, tendo em conta a situação que encontrámos quando cá chegámos…
Quando chegamos à sala – que ontem conseguimos tomar de assalto, a muito custo, para as nossas aulas teóricas - não temos carteiras, nem giz, nem apagador, como tinha ficado prometido…
A desorganização e a falta de rigor e de noção de prazos e de tarefas para cumprir é tão grande que, por estes dias, me sinto como se sentirá um suíço em terras lusas…
Mas rapidamente me agarro às origens lusas e, à medida que os alunos vão chegando a pouo e pouco, vou enviando um par deles às salas que estão em intervalo para saquearem carteiras desocupadas. A partir deste momento, até ao final do curso, em Agosto, nunca poderei deixar a sala sem a trancar com o cadeado, sob risco de perder carteiras, giz e apagador (também saqueado). Afinal, África é um continente selvagem, ou não é assim?
Ao longo do início da manhã os alunos chegam e rapidamente são doze.
Introdução do curso, apresentações, as (in)formalidades do costume…
E uma abordagem às características gerais da construção – as partes constituintes de um edifício e sua caracterização.
Depois, introdução ao estudo dos materiais.
Fixou-se o horário das aulas da seguinte forma:
07h30 – 09h30
10h00 – 12h30
14h30 – 16h30
Acordar às 6h30 é um novo desafio para um profissional liberal, arquitecto por conta própria, sempre romanticamente convencido de que o trabalho nocturno rende mais e é mais inspirador.
Agora acordo à hora a que antes me deitava muitas vezes…
Enfim, já que aqui a lua cresce sem mentir, o sol brilha a Norte e a água gira ao contrário nos ralos, porque é que não hei-de inverter todos os resquícios de hemisfério norte…?


Há alguns alunos do curso profissional de construção civil que virão frequentar algumas aulas teóricas do nosso curso, desde que não coincida com o horário deles.
O curso deles não é muito evoluído e, de facto, a própria habilitação dos professores deixa muito a desejar.
Mas alguns são interessados e ambiciosos, o que é uma boa combinação.